I
II
(...) Restou aquele puta vazio, para variar. Vacuum ad infinitum. Da iminência dos píncaros da glória ao velho poço de piche. Início de caminhada invarialvelmente confuso, com astros opacos traçando órbitas mortas ao redor da caixa craniana, nível de serotonina a -30, a bílis ainda sendo eliminada por cada poro do meu corpo azedo. Por que eu nunca movo a torre quando é hora de fazê-lo? Ao invés, incursões inúteis que fazem aumentar a quantidade de nada no meu quase inexistente coração - e nossa,como eu odeio essa palavra: coração. Odeio quase tanto quanto odeio minha letra corrida. Inexpressiva como eu. Cada linha com uma grafia diferente, parecendo psicografia. Incerta e insegura, como eu. Aliás, eu esse, classificado como inclassificável, por ser dotado de tanta cinética quanto uma pedra e ao mesmo tempo de tanta inércia quanto as águas inquietas do rio de Heráclito ou do dantesco Letes, se é que não eram o mesmo em essência. Eu esse que muta em milionésimos de segundo de uma retração estúpida para uma extroversão avessa. Do chantili do motel às pústulas purulentas da face dos espelhos quebrados. Já disse que sou esquizofrênico, não? Acho que nem era preciso. Zilhões de pseudoidéias coagulantes e frases-soltas-derretidas-borbulhando-no-pobre-cerebrozinho-para-na-horaH-do-contato-direto-e-tão-íntimo-das-membranasplasmáticasdascélulasdapeledamãocomosmonômerosdopolipropilenodotubodacanetabic apenas uma lânguida gota do que já tinha sido uma quase inspiração se dignar a manchar a porra da folha de papel cheia de linhas. Justo no momento da chorona e inquieta consciência derramar sete quedas de lodo puro sobre o indefeso bloco de notas só um mirrado perdigoto escuro se esforça para converter-se em alguma mísera e magra idéia carente de significância, a qual se enrosca em algumas letras para formar uma sequência pobre de palavras disconexas e lugares-comuns. Acho que é isso que chamam de frustração, a água gelada da incapacidade jogada com gosto de vingança contra uma alma em ebulição. E permanece aquela vaga vontade - inadmissível pela natureza da ridícula sugestão de alguma pretensão - de ter nascido poeta. Ou melhor, talvez, um mero escritor de prosa, que esse não tem que arcar com a típica grandiosidade que costuma se postar a encarar versos, mas sim com a leveza das pequenas coisas e seus intrínsecos valores jupterianos, ainda que escondidos como Plutão no subsolo agraciado pela resignada presença de Persephone.
Ah, minha Persephone, não queria te trazer para meu inferno particular, mas... talvez eu tenha esperado a vida inteira por isso.